Fonte:
Mariana Tokarnia/Agência Brasil
Foto:
Marcello Casal Jr./Agência Brasil
Maria
é apenas uma menina de 10 anos e quer revelar um segredo para sua avó: as
visitas noturnas do namorado de sua mãe ao seu quarto. Ela tenta primeiro falar
com a mãe, depois com a tia, por fim com sua avó, e todas, que já viveram
situações parecidas com a da jovem Maria, fazem vista grossa.![]()
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Para
todas as Marias esse tema é tabu e deve ser evitado. Em seus desenhos, em seus
sonhos, Maria quer se livrar dos abusos e, por fim, planeja ir morar no céu.
Até que o seu desenho é visto por uma professora que conversa com Maria, escuta
sua estória e mostra a ela uma Rede de Proteção para ser finalmente acolhida e
protegida.
Essa
é uma das histórias que será levada pelo Instituto Paulista de Magistrados
(Ipam), por meio do Projeto Eu Tenho Voz na Rede, a escolas de ensino
fundamental no estado de São Paulo e em Curitiba (PR). Ao todo, serão quatro
apresentações, gravadas em vídeo, com o objetivo de sensibilizar crianças e
adolescentes sobre a violência e o abuso sexual, e capacitar os professores e
demais agentes da comunidade escolar para lidar com o problema.
O
projeto, que já existia desde 2016 de forma presencial com o nome Eu Tenho Voz,
foi agora adaptado para ser exibido de forma remota e será lançado no próximo
dia 24. A intenção é que as peças de teatro, criadas pela Cia NarrAr Histórias
Teatralizadas, antes feitas nas próprias escolas, sejam agora assistidas pelos
estudantes e professores e que, após a exibição, sejam feitas conversas e
debates virtuais.
As
escolas serão escolhidas junto com as secretarias de Educação, sendo
priorizadas aquelas consideradas mais vulneráveis. Para que as crianças e
adolescentes sintam-se mais seguros para denunciar abusos, as ações serão
feitas em escolas que já retomaram as aulas presenciais.
“O
que a gente faz é estimular e oportunizar a denúncia. No momento que a criança
tem aquilo guardado com ela há muitos anos e percebe que não é só dela, que
isso acontece com outras pessoas, com outras crianças, e que existe a rede de
proteção e que pode se valer disso, ela se sente estimulada a denunciar”, diz a
presidente do Ipam, Tânia Mara Ahualli, que é juíza titular da 1ª Vara de
Registros Públicos, de São Paulo.
O
Projeto Eu Tenho Voz na Rede vai oferecer também capacitação a professores, de
forma remota. “Esse fator é muito importante porque nem sempre a criança
denuncia após a apresentação [das peças de teatro]. Muitas vezes, ela vai
amadurecer aquilo por uma semana. Os amigos, que normalmente sabem o que está
acontecendo, vão dar um força para a criança procurar ajuda e ela vai acabar
procurando ajuda com um professor que é mais próximo dela e com quem ela sente
maior elo de segurança. É indispensável que esses professores estejam
preparados para acolher essa vítima, colher essa denúncia para encaminhar”, diz
a idealizadora e coordenadora do projeto, juíza Hertha Helena Rollemberg
Padilha de Oliveira, que é 2ª vice-presidente do Ipam.
Hertha
explica que o projeto surgiu em 2016 para tentar prevenir uma
violência que é frequente na sociedade. Segundo o Ipam, foram feitas, em
2019, 76.216 denúncias pelos canais do Ministério da Mulher, da Família e dos
Direitos Humanos. Somente nos primeiros quatro meses de 2020, as violações
contra crianças e adolescentes tiveram 28.045 denúncias recebidas por meio de
ligações telefônicas, incluindo relatos de negligência e violência psicológica,
física e sexual.
O
Anuário Brasileiro de Segurança Pública, do Fórum Brasileiro de Segurança
Pública, mostra que 76% das crianças e adolescentes vítimas de abuso sexual conhecem
seu agressor e, na maior parte dos casos, é uma pessoa da própria família. Além
disso, revela que 42% dos casos são recorrentes. Apenas 1% dos casos de
abuso contra crianças e adolescentes chega até a Justiça.
Pandemia
Com
a pandemia do novo coronavírus e o fechamento das escolas, o projeto acabou
sendo suspenso. “Quando ocorreu a pandemia, obviamente ficamos angustiados.
Sabemos que cerca de 80% [dos casos de abuso] ocorrem dentro das próprias
casas, com pessoas próximas às crianças. Na situação em que a vítima fica
trancafiada em casa com o possível abusador, e a gente sem a possibilidade de
chegar até esses locais para prestar algum tipo de auxílio ou poder tirar a
criança, a escola estar fechada foi muito angustiante”, diz Hertha.
Segundo
a juíza, há um “apagão” de dados de abuso de crianças e adolescentes durante a
pandemia. O número de denúncias não foi atualizado por órgãos oficiais. O
Ipam chegou a modificar o site do Eu Tenho Voz para
facilitar o recebimento de denúncias, mas não chegou a receber nenhuma nos
últimos meses.
As
juízas explicam que as situações são delicadas, porque muitas vezes envolvem
familiares e, para contar o que acontece, as crianças precisam estar em
ambientes seguros, que acabam sendo, muitas vezes, as escolas.
Quem
está passando por essa situação ou mesmo quem sabe ou suspeita que crianças e
adolescentes estejam sofrendo algum tipo de abuso podem fazer as denúncias
no site do Eu Tenho Voz, pelo telefone (11) 3105-9290,
pelo e-mail: eutenhovoz@ipam.com.br, ou pelos demais canais de denúncia
governamentais disponíveis na própria plataforma do projeto: Disque 100, 181 e
190.

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