Fonte: Pedro Peduzzi /Agência
Brasil
Na medida em que o novo coronavírus avança, um verbo se faz cada
vez mais presente na vida das pessoas: o verbo cuidar. A facilidade com que o
vírus se espalha tem levado as pessoas a reforçar velhos cuidados e a agregar à
rotina novos cuidados, não só para si, mas para os outros. Em meio a esse
cenário, os profissionais que carregam no próprio nome o cuidar – os
cuidadores de idosos – tiveram de ver seus procedimentos aperfeiçoados e a
atenção redobrada. Afinal, cuidam da vida daqueles que são as maiores vítimas
da nova doença.
É o caso da cuidadora Odelsa Dutra Jatobá, de 63 anos; 14 deles
sendo cuidadora de idosos. “Cuidar sempre foi algo que eu associava a amor,
carinho e a doação. Agora agrego a ela um outro verbo: prevenir. Eu dizia ‘quem
ama cuida’. Agora eu digo ‘quem ama cuida e previne’”, disse ela à Agência Brasil durante o intervalo entre as muitas tarefas que desenvolve
diariamente.
Antes mesmo da chegada ao Brasil da covid-19, doença causada
pelo novo coronavírus, Odelsa já notava que algo mudaria em sua rotina de
cuidadora. “As notícias da doença em outros países já assustava a todos.
Passamos então a ter de trabalhar a cabeça do idoso, de forma a prepará-lo para
as medidas preventivas, em especial para o fato de familiares deixarem de ir ao
quarto com a mesma frequência”.
Otimista e
cuidadoso
Segundo ela, para lidar com a situação o ideal é explicar o que
está acontecendo no mundo, com relação à doença, mas apresentando um ponto de
vista "otimista e cuidadoso”. “Eu costumo falar que já tivemos outras
doenças, e que sempre as superamos”, disse.
“Tem horas que eles ficam tristes. Tanto por não poderem receber
mais as visitas da família, como por se verem como alvo do vírus. Há também
muita preocupação com os parentes fora de casa, em especial com os filhos que
estão na idade de risco”, acrescenta.
A pandemia trouxe outras mudanças na rotina dos cuidadores. Por
cautela, as famílias reduziram algumas das atividades que até então eram
exercidas por outros profissionais, por meio de visitas – caso de
fonoaudiólogos, treinadores físicos, psicólogos, recreadores, nutricionistas.
“Agora passamos a ser tudo isso. Viramos multi disciplinadores”, disse.
“Com a opção da família por evitar contato dos idosos com outras
pessoas, buscamos algumas alternativas para solucionar essa limitação. Uma
delas é o uso de chamadas de vídeo. Do outro lado da linha, eles nos passam as
instruções e conferem se tudo está sendo feito direitinho. Isso é muito
importante porque o idoso já está acostumado com eles. Sem falar que, por
exemplo, durante um exercício físico o idoso pode tentar nos enrolar. Com o
instrutor olhando, isso fica mais difícil”.
Mudanças
O medo de contaminação gerou dois tipos de situação para os
cuidadores profissionais. A primeira, de confinamento junto a seus pacientes, a
pedido da família. “Tenho algumas colegas que passaram a viver com seus
pacientes. Por outro lado, muitas cuidadoras estão agora desempregadas porque a
família [do idoso] achava que elas poderiam trazer o vírus”.
Rotina
Segundo o presidente da Associação Brasileira dos Empregadores
de Cuidadores de Idosos (Abeci), Adriano Machado, um dos grandes problemas
decorrentes da pandemia de covid-19 foi a mudança de rotina que causou para os
idosos. “Higiene e isolamento são a base de tudo. No entanto, é muito
importante para o idoso manter a vida na maior normalidade possível, com banho
de sol, exercícios e alimentação, uma vez que eles são bem mais sensíveis a
alterações de rotina. Isso tem de ser levado em consideração”, disse ele à
Agência Brasil.
Essa rotina não abrange apenas atividades. “Envolve
medicamentos, alimentação, hidratação e muitas outras coisas específicas de
cada caso”, acrescentou. Nesse sentido, abrir mão de um profissional por medo
de ele servir de canal de contaminação para o idoso é também algo que pode ser
problemático.
Riscos
“Tivemos o caso de um cliente que, diante dos primeiros casos
noticiados de covid-19, dispensou o cuidador. Depois de 22 semanas, por causa
da alteração na alimentação, foi gerado um fecaloma, que é quando o bolo fecal
[fezes] seca, endurece e não sai espontaneamente. Isso ocorreu basicamente por
causa de uma deficiência alimentar”, explicou Machado.
Ele aponta também riscos com relação a aplicação de
medicamentos, quedas e desidratação. “Há ainda casos mais complexos, como o de
pacientes com Alzheimer. Muitos não sabem, mas há casos em que se tem de cobrir
espelhos porque pacientes com tendências agressivas podem quebrá-los por não se
reconhecerem, e acharem que se trata de outra pessoa”.
Deslocamento
De acordo com o presidente da Abeci, houve queda na atividade
desde que a doença chegou no país. “O movimento por novos clientes está
praticamente zero. Quem já tem prefere segurar, mas muitos contratos foram
suspensos por medo da circulação do cuidador na rua, uma vez que eles costumam
usar transportes públicos, meio pelo qual o vírus tem melhores condições de se
espalhar”.
Diante desse medo, algumas famílias optaram por mudar o horário
do cuidador, para que ele pegasse transportes mais vazios, ou mesmo passaram a
pagar por outras alternativas de transporte, como táxis e motoristas de
aplicativos. “Tem caso de famílias que dão até luvas para as cuidadoras usarem
durante o deslocamento”, informa Machado.
Em todo e qualquer ambiente, o cuidador tem de seguir os
cuidados que são divulgados por autoridades sanitárias, como manter corpo e o
ambiente higienizados, lavar sempre as mãos com água e sabão ou álcool gel, e
manter distância de cerca de 2 metros de outras pessoas.
“E ao chegarem na casa, o indicado é que tomem um banho e
troquem de roupa. Em alguns casos, a pedido da família, os cuidadores têm de
usar máscara constantemente”, acrescenta.
Terceirização
x contratação direta
Há duas formas de se contratar um cuidador de idosos: por
contratação direta ou via empresas especializadas. Dona Odelsa conhece bem as
duas situações. “Desde 2017 trabalho terceirizada por uma empresa. A vantagem é
que nelas somos registrados como qualquer outro trabalhador, enquanto nas
contratações diretas, apesar de ganharmos um pouco mais, nem sempre somos
registrados”, disse.
“Outra vantagem é o apoio. Empresas costumam oferecer cursos dos
mais variados, indo desde aferir pressão até a manipulação de equipamentos,
medicações e alimentos. Qualquer dúvida que eu tenha, posso ligar para a
empresa, que dá uma retaguarda. Isso é importante porque cada paciente tem uma
necessidade diferente”, explica a cuidadora.
De acordo com a Abeci, apesar de não ser regulamentada, a
profissão de cuidador de idosos tem despertado cada vez mais o interesse das
pessoas, a ponto de, entre 2004 e 2017, ter registrado um aumento de 690%,
passando de 4,3 mil para 34 mil profissionais. Em média, a remuneração é de
cerca de R$ 1,3 mil mensais.
Cursos
A Associação Brasileira dos Empregadores de Cuidadores de
Idosos, inclusive, surgiu da necessidade das empresas oferecerem cursos para a
formação de novos profissionais. Atualmente, a Abeci oferece cursos gratuitos,
além de indicar cuidadores para famílias de baixa renda. “Somos uma entidade
sem fins lucrativos. Nossa indicação é gratuita, mas o preço pelo serviço é
combinado entre as partes. Em geral, a família nos explica a situação e a gente
indica a melhor forma de obter esse tipo de serviço”, explica o presidente da
Abeci.
Segundo ele, essa iniciativa é interessante para as empresas do
setor porque, ao agregar experiência a esses profissionais, deixa-os melhor
preparados para, em outro momento, serem contratados para integrar suas
equipes.
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