Texto: Alana Gandra/Agência Brasil
Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil
Estudo internacional, coordenado por pesquisadores
brasileiros e publicado na revista Nature Ecology and Evolution,
aponta perda significativa de espécies nativas do Cerrado nos próximos 30 anos
se o ritmo atual de desmatamento do bioma continuar. A razão para isso é que há
4.600 espécies de plantas endêmicas no bioma, que não existem em nenhum outro
lugar do planeta. Os pesquisadores projetam um quadro de extinções de espécies
de grande magnitude se nada for feito.
Eles estimam que até 1.140 espécies podem desaparecer pelo
desmatamento acumulado. “Esse é um número oito vezes maior do que todas as
espécies registradas como extintas no mundo até hoje”, disse o coordenador da
pesquisa, Bernardo Strassburg. Desde o ano de 1.500, quando foram feitos os
primeiros registros das espécies de plantas no planeta, 139 foram declaradas
oficialmente extintas.
Segundo Strassburg, o Cerrado já perdeu metade da área
original. “Se tudo continuar no cenário que a gente chama de tendencial, vai
perder um terço do que sobrou nas próximas três décadas”. O Cerrado já perdeu
88 milhões de hectares, o equivalente a 46% da cobertura nativa.
Isso gera problemas ambientais de diversas naturezas. A
crise hídrica que a Região Centro-Oeste, onde se situa o Distrito Federal,
enfrenta no momento seria agravada pela falta do bioma e também haveria a
emissão de gases de efeito estufa de 8,5 bilhões de toneladas de gás carbônico.
“Isso tudo seria consequência direta do desmatamento projetado para os próximos
30 anos”, disse Strassburg.
Secretário executivo do Instituto Internacional para a
Sustentabilidade e coordenador do Centro de Ciências para a Conservação e
Sustentabilidade da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro
(PUC-Rio), Strassburg destacou que o Cerrado é um hotspot mundial de
biodiversidade (região biogeográfica que é simultaneamente uma reserva de
biodiversidade e pode estar ameaçada de destruição).
Segundo a pesquisa, esse cenário pode ser evitado sem
comprometer o aumento da produção agrícola programado, que projeta em torno de
15 milhões de hectares de expansão de soja e cana-de-açúcar nos próximos 30
anos no Cerrado.
“Isso tudo pode ocorrer, desde que dentro de áreas já
desmatadas, que hoje são usadas como pastagens de baixa produtividade. Você
melhora a produtividade de pastagens em outros locais, libera algumas pastagens
para soja e cana, faz toda essa expansão. Esses 15 milhões de hectares cabem na
metade do Cerrado que já foi desmatada sem necessidade de desmatamento adicional”,
ressalta.
De acordo com Strassburg, o Código Florestal Brasileiro
estima que os fazendeiros terão que restaurar 6 milhões de hectares, o
equivalente a 6 milhões de campos de futebol, caso queiram ficar em
conformidade com a lei. O artigo da revista mostra, ainda, que restaurar esse
volume de vegetação nativa é bom, mas que, se isso for feito nas áreas
otimizadas para proteção das espécies, será possível evitar 83% desse quadro
projetado.
“Ou seja, se você expande a agricultura para áreas já
desmatadas e restaura o Cerrado nas áreas mais importantes para as espécies,
você consegue evitar 83% do quadro projetado”, disse o pesquisador.
O estudo cita um conjunto de oito políticas públicas e
privadas existentes, algumas em aplicação no Cerrado e outras na Amazônia, mas
sugere que algumas delas, como o caso da Moratória da Soja, por exemplo,
deveriam ser estendidas para o Cerrado. Strassburg ressaltou, porém, que esse mix de
políticas precisa ser coordenado entre si e financiado de forma apropriada.
Além da Moratória da Soja, implantada na Amazônia, que
praticamente eliminou a conversão direta de áreas de floresta para o cultivo da
soja na região, as políticas em vigor incluem a expansão da rede de áreas
protegidas, uma vez que o Cerrado tem hoje menos de 10% de sua área protegida
em unidades de conservação. Para Strassburg, também é importante aumentar o
financiamento para conservação, inclusive com verbas oriundas de projetos de
combate às mudanças climáticas.
Ele acrescentou que, além disso, políticas nacionais,
estaduais e municipais diretamente focadas na preservação de espécies ameaçadas
precisam ser fortalecidas. Strassburg citou o Plano de Agricultura de Baixo
Carbono, do Ministério da Agricultura, que poderia ser implementado em maior
escala, com a preocupação de orientar a expansão da soja e da cana para áreas
já desmatadas e melhorar a pecuária em outras áreas.
Para tudo isso funcionar, Strassburg considera essencial um
planejamento espacial estratégico para identificar as áreas prioritárias para a
conservação e restauração da vegetação nativa e aquelas em que a expansão da
agricultura teria menor impacto no meio ambiente, além de serem boas para a
atividade agrícola.
O estudo conta com a parceria dos ministérios do Meio
Ambiente (MMA) e da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações.
O diretor do Departamento de Conservação de Ecossistemas do
MMA, Carlos Alberto de Mattos Scaramuzza, é um dos autores do artigo e, segundo
Strassburg, espera que o trabalho seja útil para a formulação de políticas
públicas ambientais no país e também para mobilizar o apoio necessário para a
preservação do Cerrado.

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